Uma pesquisa que começou como uma simples busca por material de arquivo sobre a cantora Betty Davis terminou revelando um dos achados mais curiosos da história recente da cultura pop: quase trezentas latas de celuloide guardadas por meio século em um porão de Paris. Ali estava o registro completo do Festival Riviera '76, evento batizado informalmente de "Woodstock provençal", que muitos consideravam praticamente uma lenda urbana - inclusive parte de quem esteve presente. Após dois anos de restauração, o material virou documentário, lançado pela france.tv em 31 de julho e disponível gratuitamente no canal da emissora no YouTube.
Por trás da empreitada estava Michael Lang, o mesmo produtor que havia colhido reconhecimento mundial ao organizar Woodstock, o evento mais emblemático da era hippie. Sete anos depois, animado pelo sucesso anterior, Lang decidiu tentar reproduzir a fórmula do outro lado do Atlântico. Reuniu cerca de seis milhões de francos, associou-se a Albert Grossman - empresário de Bob Dylan e Janis Joplin - e conseguiu o direito de uso do autódromo de Fórmula 1 Paul Ricard, em Le Castellet, no sul da França. No papel, a ideia parecia sólida; na prática, Lang, entre sonhador e oportunista, caminhava para um fiasco. É quase inevitável pensar em como o acaso e o risco definem tantas histórias do entretenimento, da mesma forma que fascina quem aprecia o imprevisível em um jogo burning hot, onde o resultado também está sempre em suspenso até o último momento.
Um cartaz ambicioso que virou colcha de retalhos
A divulgação original prometia um festival de jazz refinado, com nomes de peso em um cenário paradisíaco. O line-up final, porém, misturou salsa, reggae, rock progressivo, jazz fusion e funk afrocêntrico - um mosaico de públicos e sensibilidades muito distintas. Enquanto Woodstock havia sido lembrado pela curadoria coesa, o Riviera '76 explodiu em nichos difíceis de conciliar. As paisagens verdes e o lago prometidos também nunca existiram: no lugar, um terreno de cascalho e asfalto escaldante sob o sol de julho. Parte do público improvisou banho em tanques de bombeiros, que acabaram virando espaços de nudismo espontâneo, enquanto garrafas quebradas no fundo da água provocaram uma sequência de cortes nos pés que quase gerou um problema sanitário mais sério.
Shows marcantes em meio ao caos
O documentário reconstrói cenas que ficaram gravadas na memória de quem esteve lá. Joe Cocker, veterano de Woodstock e atração principal anunciada, tocou menos de vinte minutos, visivelmente instável, e deixou o palco em meio a vaias e objetos atirados pelo público. Betty Davis, chamada para substituir o ex-marido Miles Davis, entregou uma apresentação intensa, com uma carga de funk que muitos descrevem como o ponto alto do evento. Já o grupo francês de vanguarda progressiva Magma subiu ao palco às cinco da manhã, diante de uma plateia praticamente deitada em sacos de dormir espalhados pelo chão.
Da desorganização financeira à fuga do produtor
Nos bastidores, o festival era um caos administrativo. Sem dinheiro para pagar os artistas, Lang chegou a oferecer direitos futuros sobre as filmagens - futuro que nunca se concretizou. Para piorar, a máfia local se infiltrou na organização, desviou parte da arrecadação e chegou a ameaçar o produtor, que também prometeu a eles direitos sobre o material gravado. No fim, a cena mais cinematográfica foi a fuga de Lang de volta aos Estados Unidos, tentando preservar a própria segurança e o que restava de sua reputação. O Riviera '76 acabou como nota de rodapé porque nunca teve um propósito claro: enquanto Woodstock representava a extensão natural do pacifismo e das lutas civis dos anos 1960, o festival francês tentou reviver esse espírito em uma geração já acomodada ao emprego estável e às férias remuneradas da era Giscard d'Estaing. O sonho hippie já estava enterrado - restava apenas a insônia.