Arthur Fery

Féry encerra corrida histórica em Wimbledon após derrota para Zverev nas semifinais

Féry encerra corrida histórica em Wimbledon após derrota para Zverev nas semifinais

A improvável jornada de Arthur Féry em Wimbledon chegou ao fim nesta sexta-feira no Centre Court, onde o wild card britânico foi superado pelo número 2 do mundo, Alexander Zverev, por 7-6(0), 6-2 e 6-4. A derrota interrompe uma campanha que redefiniu as perspectivas do tenista de 23 anos, mas não apaga o que ele construiu ao longo de duas semanas extraordinárias no All England Club.

Féry, que entrou no torneio ranqueado em 114º lugar, jamais havia conquistado vaga no chaveamento principal de um Grand Slam por ranking antes desta edição. Agora, ele sairá de Londres como número 36 do mundo, na iminência de ser cabeça de chave nos maiores eventos do circuito. Para quem quiser acompanhar mais detalhes dessa transformação de carreira, vale continue lendo e entender o que essa campanha representa para o tênis britânico e para o próprio jogador. A pergunta que fica é se Wimbledon 2026 será o ponto de partida de algo duradouro ou um episódio isolado de grandiosidade.

Zverev impõe sua classe e confirma vaga na final

O alemão de 29 anos chegou a esta semifinal carregando uma libertação visível desde que conquistou Roland Garros no mês passado, seu primeiro título de Grand Slam após quatro finais perdidas. Contra Féry, Zverev foi uma versão mais assertiva e confiante de si mesmo, especialmente pelo lado do forehand - um golpe que historicamente lhe custou pontos por excesso de conservadorismo, mas que desta vez produziu 22 winners ao longo do jogo.

O jogo no primeiro set foi equilibrado o suficiente para Féry forçar o tiebreak, mas ali Zverev fez o que um campeão de Slam deve fazer: elevou o nível. Acertou os três primeiros serviços, desferiu mais forehands contundentes e venceu o tiebreak por 7 a 0. A partir daí, o duelo assumiu contornos de uma luta de pesos diferentes. O game em que Zverev quebrou para 2-1 no segundo set foi descrito por John McEnroe, na transmissão da BBC, como "um dos melhores que já vi dele", com destaque para um return winner de forehand para fazer 0-40. Quando Zverev abriu 4-1 com um forehand lift espetacular saído de um drop volley, a energia restante do Centre Court foi sugada pela autoridade do alemão. Ele fechou o segundo set sem maiores sustos e quebrou novamente no terceiro para 3-2, com um forehand inside-out de uma violência que provocou a pergunta inevitável: o que teria acontecido se ele sempre tivesse jogado assim?

Féry mostra caráter, mas a lição foi necessária

A capacidade de Féry de se recuperar de situações adversas tinha encantado a quinzena toda - vitórias de virada sobre Zizou Bergs e Grigor Dimitrov em cinco sets nas terceira e quarta rodadas alimentaram a esperança do público. No terceiro set, com Zverev a um game de fechar em 5-2, o britânico salvou três break points, o último com uma meia-voleio de passing shot que arrancou aplausos até do adversário, e emendou dois aces para segurar o saque. O Centre Court atingiu o volume mais alto da tarde. Mas Zverev é um especialista em gerir adversários de nível inferior e fechou o confronto com tranquilidade, confirmando sua vaga na final do torneio pela primeira vez em sua carreira e se tornando o único jogador da atualidade a ter disputado a final dos quatro Grand Slams.

"Foi definitivamente um degrau a mais hoje", reconheceu Féry em entrevista coletiva. "Sabemos o quão bem ele consegue jogar. Ele estava acertando o forehand muito bem, eu achei. Realmente indo fundo." Zverev, por sua vez, foi generoso na avaliação do adversário: "Acho que o jogo dele é muito, muito bom. Tem muita coisa que ele ainda pode melhorar, o que é algo positivo, porque ele acabou de fazer uma semifinal de Wimbledon pela primeira vez. Se você sabe que está apenas começando e já chegou às semis de um Slam, isso é encorajador."

Uma carreira transformada e um futuro em aberto

Féry completa 24 anos neste domingo, mas é um estreante no sentido profissional do termo. Entre 2020 e 2023, passou três anos na Universidade de Stanford, na Califórnia, e após a formatura enfrentou mais lesões do que partidas no circuito. Nesta quinzena, disputou tantos jogos em nível de Grand Slam quanto em toda a sua carreira anterior somada. O modelo de formação via universidades americanas - trilhado também por Cameron Norrie e Jacob Fearnley - volta a ganhar argumentos com o exemplo de Féry: jogadores que chegam ao circuito com mais maturidade emocional e física na casa dos 20 e poucos anos, em vez de serem lançados ainda adolescentes.

Na coletiva, Féry mencionou dois referenciais para tentar sustentar o que alcançou: Emma Raducanu, compatriota que venceu o US Open de 2021 como qualifier, e Valentin Vacherot, o monegasco que ganhou o Masters de Xangai no ano passado estando fora do top 200 e chegou a figurar entre os 16 melhores do mundo em 2026. "Ele foi de 200 para vencer um Masters. De repente pareceu que o nível base dele mudou de um dia para o outro", disse Féry. "Caras assim, tento pegar o que fizeram e fazer o mesmo." O maior desafio concreto será a adaptação do seu jogo - eficaz no serviço pela fluidez do movimento que compensa seus 1,75m, e devastador no backhand slice sobre a grama - às quadras duras e de saibro que dominam o calendário. Com pouquíssimos pontos a defender no restante do ano, ele terá margem para experimentar e crescer sem a pressão de manter uma classificação construída sobre a performance de uma única semana.

Féry deixou o court sob ovação de pé. Com Jack Draper e Raducanu lidando com lesões, o tênis britânico pode ter encontrado um herói improvável - e notavelmente preparado para o peso que esse papel carrega. A fase norte-americana de quadras duras começa em breve, e Féry estreará nela como número 1 do Reino Unido. Para um jogador que passou as últimas duas semanas sem demonstrar qualquer sinal de pressão, isso pode ser apenas mais um detalhe no caminho.